Análise: Presidenciáveis divergem sobre clima, energia e florestas

A Nova Agenda Climática nas Eleições: O Que os Candidatos Propondo?

A leitura de cinco programas de governo que estão disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revela um aspecto interessante e atual: a agenda climática passou a ter um papel central nas discussões sobre a economia durante as eleições. Candidatos como Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema concordam na importância da energia limpa, mas divergem em relação às metas, estratégias e meios de execução.

Diferenças nas Emissões de Carbono

Um dos pontos mais marcantes e objetivos que podem ser percebidos é a distinção nas metas de redução de emissões. Lula se destaca, sendo o único entre os cinco candidatos a incluir uma meta nacional clara, que é de diminuir as emissões líquidas entre 59% e 67% até 2035, tendo como base o ano de 2005. Isso é uma proposta ousada e que reflete um compromisso sério com a questão climática.

Por outro lado, Flávio Bolsonaro, Caiado, Renan e Zema não apresentam uma meta nacional semelhante nos seus programas. Eles tendem a focar mais em estratégias como mercado de carbono e soluções setoriais que promovem uma economia de baixo carbono ou a remoção de carbono do meio ambiente. Essa abordagem mais fragmentada pode gerar incertezas sobre o comprometimento real com as questões climáticas.

A Situação da Eletricidade

Quando se fala em eletricidade, embora as distâncias entre as propostas diminuam, ainda existem diferenças. Lula propõe uma combinação de fontes renováveis, armazenamento e modernização da infraestrutura de transmissão. Flávio Bolsonaro também se mostra a favor da expansão das energias renováveis e da modernização do sistema de transmissão, enquanto Caiado liga a modernização das hidrelétricas a essas novas fontes de energia.

Renan Santos tem uma visão mais abrangente, buscando destravar a transmissão elétrica, retomar a construção da usina Angra 3, explorar o potencial do hidrogênio verde e até mesmo acompanhar os avanços na fusão nuclear, mesmo que essa tecnologia ainda esteja a duas ou três décadas de uma viabilidade econômica real. Zema, por sua vez, foca em reduzir o desperdício das fontes de energia solar e eólica já existentes e usa essas energias renováveis para eletrificar a economia.

Os Biocombustíveis e Suas Estratégias

As propostas em relação aos biocombustíveis também revelam visões distintas entre os candidatos. Lula tem a intenção de ampliar a produção de etanol, biodiesel, biometano e combustível sustentável de aviação, além de fortalecer o programa RenovaBio. Já Flávio Bolsonaro se propõe a transformar o Brasil em uma potência nesse setor, buscando internacionalizar o programa.

Caiado, por sua vez, sugere um Plano Decenal de Bioenergia, que integra essas várias fontes de biocombustíveis, enquanto Zema está mais focado em abrir mercados internacionais para biocombustíveis avançados, embora não especifique quais seriam esses produtos. No resumo executivo de Renan, não há uma política clara para o setor de biocombustíveis, o que pode ser uma lacuna significativa em sua proposta.

Desmatamento e Fiscalização

Quando a pauta é o desmatamento, as métricas propostas pelos candidatos também se diferem. Lula reafirma seu compromisso de alcançar o desmatamento líquido zero até 2030, enquanto Flávio Bolsonaro estabelece uma meta de desmatamento ilegal zero até 2029, utilizando inteligência artificial e dados em tempo real para isso.

Caiado combina a fiscalização com inteligência financeira, visando atingir não só os desmatadores, mas também quem financia e compra produtos ilegais. Zema sugere uma abordagem integrada, envolvendo segurança, órgãos ambientais e Justiça, com monitoramento via satélites. No entanto, o resumo de Renan reconhece a relação entre as rodovias e o desmatamento na Amazônia, mas não detalha uma estratégia específica para combatê-lo.

A Importância da Implementação

Para empresas e investidores, o aspecto mais relevante pode não ser apenas o reconhecimento da agenda climática, mas sim como essa agenda será executada. Expandir as energias renováveis exige redes e sistemas de armazenamento; os biocombustíveis dependem de regulamentações e um mercado estável; e controlar o desmatamento requer fiscalização eficiente e capacidade institucional.

Essa diferença nas abordagens também torna difícil comparar as metas apenas pelo prazo. Uma meta quantitativa pode facilitar a cobrança de resultados, mas precisa de instrumentos concretos para se tornar realidade. Por outro lado, propostas que se baseiam em mercados ou fiscalização precisam de regulamentos estáveis e recursos adequados para serem implementadas de maneira eficaz.

Além disso, vale a pena destacar que a análise realizada considera apenas os textos oficiais registrados no TSE, e não o programa completo de Renan Santos. Portanto, a falta de detalhes no resumo não deve ser vista como falta de propostas no programa completo.

Essencialmente, a eleição atual demonstra que o debate sobre a transição climática não se resume mais a aceitar ou rejeitar essa transição. A disputa agora se concentra em como executar essa transição, como financiá-la e quem arcará com seus custos e oportunidades. É nesse momento de passar das promessas para a implementação que os programas enfrentam seu desafio mais significativo.



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