Maioria dos feminicídios atinge mulheres negras e ocorre dentro de casa

Feminicídio no Brasil: Um Retrato Alarmante da Violência de Gênero

Recentemente, o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública foi divulgado, trazendo à tona dados preocupantes sobre o feminicídio no Brasil. Este relatório revela que a violência letal contra as mulheres permanece elevada e, alarmantemente, a maior parte dessa violência ocorre dentro de casa, muitas vezes perpetrada por homens que têm alguma relação próxima com as vítimas. É um ciclo de violência que parece interminável e que exige uma análise profunda e ações efetivas.

Perfil das Vítimas

De acordo com o levantamento, em 2025, 65,1% das mulheres assassinadas por razões de gênero eram negras. Este dado, por si só, já é um indicativo de que a violência não atinge todas as mulheres de maneira igualitária. Além disso, mais da metade das vítimas tinha entre 25 e 44 anos, uma faixa etária que representa o pico de incidência de casos de feminicídio. Essa informação é chocante e nos leva a refletir sobre a necessidade urgente de estratégias que visem a proteção dessa população tão vulnerável.

O Lar como Cenário de Violência

Outro dado alarmante é que 62,5% dos feminicídios ocorreram dentro do lar. Isso mostra que o espaço que deveria ser seguro para as mulheres, muitas vezes se torna o palco de situações de violência extrema. Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destaca que, embora a violência impacte mulheres de todos os grupos sociais, ela é desproporcionalmente direcionada às mulheres negras. “Quando olhamos para o recorte racial, estamos falando de 65% das vítimas de feminicídio sendo mulheres negras. Se ampliarmos o olhar para todas as mortes violentas intencionais de mulheres, essa concentração chega a quase 75%”, afirma Brandão.

Quem São os Agressore?

Os dados são ainda mais perturbadores quando analisamos a autoria dos crimes. Quando a autoria foi identificada, 96,4% dos feminicídios foram cometidos por homens. Em quase 80% dos casos, o autor tinha algum tipo de vínculo familiar ou afetivo com a vítima, sendo 60,9% parceiros íntimos, 18,9% ex-parceiros e 12,1% familiares. Isso nos leva a crer que o feminicídio raramente é um ato isolado; é, na verdade, a culminância de um ciclo de violência que muitas vezes começa com agressões não letais, ameaças e outras formas de violência de gênero.

Um Ciclo de Violência

Brandão aponta que a persistência desse padrão, mesmo após quase duas décadas da Lei Maria da Penha, indica que a violência contra a mulher é um fenômeno cíclico e estrutural. “Estamos falando de episódios de violência não letal que frequentemente antecedem o feminicídio e que nem sempre são alcançados pelas medidas de proteção”, ressalta. Essa afirmação evidencia a urgência de se implementar políticas públicas que não apenas protejam as mulheres, mas que também abordem a raiz do problema.

Dados e Estatísticas

O Anuário também destaca a dimensão da violência que precede os feminicídios. Para cada mulher assassinada, o Brasil registrou, em média, 502 ocorrências de ameaça, 182 casos de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica e 84 registros de descumprimento de medida protetiva de urgência. Além disso, houve 79 casos de perseguição (stalking) e 2,7 tentativas de feminicídio. Esses números indicam que muitas mulheres estão em situações extremamente perigosas, e que há oportunidades para intervenção antes que o crime se consuma.

Crescimento das Tentativas de Feminicídio

As tentativas de feminicídio também aumentaram em 2025, com 4.189 mulheres sobreviventes, o que representa uma alta de 5,9% em relação ao ano anterior. Para cada feminicídio consumado, houve quase três tentativas, mostrando que muitas mulheres escaparam da morte por fatores alheios à vontade do agressor. Brandão adverte que esses casos não significam que o agressor desistiu; na verdade, eles não conseguiram levar a cabo o ato. Isso destaca a necessidade urgente de o Estado se mobilizar para identificar situações de risco e proteger essas mulheres antes que a violência evolua para o feminicídio.

Conclusão e Chamado à Ação

Compreender o perfil das vítimas e dos agressores é fundamental para a elaboração de políticas públicas mais eficazes. O enfrentamento ao feminicídio não deve se limitar à responsabilização dos agressores, mas também incluir a identificação precoce de casos de violência doméstica e o fortalecimento da rede de proteção às mulheres. É um desafio complexo, mas é um passo necessário para interromper o ciclo da violência antes que ele leve a um desfecho trágico. A sociedade deve se unir para exigir mudanças e garantir a segurança e dignidade das mulheres.



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