Tensões entre Israel e EUA: O futuro da aliança em meio a um novo acordo com o Irã
Recentemente, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, estava em uma reunião com seu gabinete de segurança dentro de um bunker, uma precaução em caso de um possível ataque de mísseis balísticos vindos do Irã. Nesse cenário tenso, o telefone tocou, e na linha estava o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A ligação tinha como objetivo discutir um memorando de entendimento que estava sendo elaborado entre os EUA e o Irã.
Essa foi a segunda conversa entre os líderes na mesma manhã. Na primeira, Trump expressou sua frustração com o recente ataque de Israel a Beirute, criticando Netanyahu por suas decisões, segundo informações do jornal Axios. Na segunda ligação, realizada no dia 15 de fevereiro, Trump informou que a guerra iniciada em conjunto no final de fevereiro estava chegando ao fim. Essa mudança de tom deixou o governo israelense em um estado de alerta.
Voltando ao passado, em 2015, quando o então presidente Barack Obama assinou um acordo nuclear com o Irã, Netanyahu foi um dos seus maiores críticos, denunciando publicamente o pacto e sua implementação. Ele fez um discurso no Congresso dos EUA, contando com o apoio dos republicanos, para atacar tanto o acordo quanto Obama. No entanto, neste momento, a reação de Netanyahu ao novo acordo foi muito mais contida. Ele quase não se manifestou sobre o assunto, o que é um contraste notável.
O novo acordo, que é o que as autoridades israelenses temiam, pode permitir que o Estreito de Ormuz seja reaberto e levar a um alívio nas sanções econômicas impostas a Teerã. Além disso, isso pode adiar as discussões sobre questões que Israel considera fundamentais em relação à segurança nacional.
O memorando de entendimento deixa em aberto discussões sobre o programa nuclear iraniano e seu arsenal de mísseis balísticos, enquanto oferece um alívio econômico ao regime iraniano que Netanyahu há muito deseja derrubar. Quando finalmente se manifestou publicamente sobre o acordo, Netanyahu fez isso horas depois que outros políticos israelenses já haviam se pronunciado. Durante uma coletiva de imprensa, ele passou apenas alguns minutos mencionando o acordo, dando a impressão de que estava deixando o assunto em segundo plano.
O mais surpreendente é que ele não fez menção a Trump em suas declarações, algo que costumava ser um ponto de orgulho em sua retórica política. Quando questionado sobre o acordo, Netanyahu afirmou que existem momentos em que ele e Trump não concordam, enfatizando que sua responsabilidade é com a segurança de Israel.
Outro ponto importante que surgiu é que o acordo pode impor novas limitações à capacidade de Israel de agir contra o Hezbollah, uma vez que o Irã exige a retirada total das forças israelenses do sul do Líbano. Um alto funcionário americano declarou que essa retirada não era uma condição para o acordo, mas deixou clara a posição de que, se o Hezbollah atacar Israel, o país terá o direito de se defender.
Embora Netanyahu esteja evitando um confronto direto com Trump, líderes israelenses de várias correntes políticas não têm hesitado em criticar o acordo. Por exemplo, Bezalel Smotrich e Itamar Ben Gvir, dois ministros da coalizão de Netanyahu, descreveram o acordo como perigoso, afirmando que Israel não se considera vinculado a ele. Naftali Bennett, um ex-primeiro-ministro que agora busca desbancar Netanyahu, chamou o acordo de uma virada perigosa para a segurança israelense.
As tensões entre os dois líderes parecem estar crescendo, especialmente considerando que meses atrás, a equipe de Netanyahu tinha um plano claro: uma vitória rápida sobre o Irã, seguidas de imagens positivas de uma visita à Casa Branca, que impulsionariam sua campanha para as eleições de outubro. Ao invés disso, as negociações para encerrar a guerra têm provocado desentendimentos públicos, o que afeta a relação entre os dois líderes.
Além disso, a popularidade de Trump está em declínio, o que pode complicar ainda mais a situação. Uma pesquisa recente revelou que a porcentagem de israelenses que consideram Trump uma preocupação central para a segurança de Israel caiu drasticamente. Isso pode indicar uma mudança de percepção que afetará a dinâmica política nas próximas eleições.
Por fim, enquanto a equipe de Netanyahu busca uma mensagem nova para sua campanha, figuras da oposição estão aproveitando a situação para criticar o primeiro-ministro, sugerindo que sua aliança com Trump não é mais benéfica. Em meio a todas essas tensões, Netanyahu parece estar buscando uma reunião privada com Trump para discutir suas preocupações. A pergunta que fica é: será que essa relação poderá se recuperar antes das eleições?