O Agente Secreto: exemplo de diversidade e inclusão no cinema brasileiro

Reflexões sobre ‘O Agente Secreto’: Um Retrato do Brasil Atual

Essa semana, durante minhas férias na linda Bahia, mais precisamente em Salvador, tive a chance de finalmente ver e refletir sobre um dos maiores sucessos do cinema nacional até hoje: ‘O Agente Secreto’. Cheguei a me preparar para uma possível decepção, mas, para minha surpresa, o filme superou minhas expectativas. A última vez que me arrisquei a opinar sobre um filme que tinha quase uma unanimidade no cinema brasileiro e que também concorria ao Oscar foi há mais de 20 anos, quando escrevi sobre o icônico ‘Central do Brasil’. Naquela época, critiquei a falta de representatividade, mencionando que mesmo um caminhão de retirantes que passava ao fundo não apresentava personagens negros em sua boleia.

O filme ‘Ainda Estou Aqui’ trouxe alguma melhora nesse aspecto, mas nada comparado ao que vi em ‘O Agente Secreto’. A diversidade de raça, gênero, idade, deficiência e até etarismo salta aos olhos, proporcionando uma visão visceral do Brasil real, nu e cru, durante os anos 70, época da ditadura militar, cujas raízes ainda influenciam a violência policial que enfrentamos nos dias de hoje.

A Diversidade no Elenco

Descrever a diversidade presente em ‘O Agente Secreto’ pode ser um desafio, mas é algo que está espalhado por toda a produção. O ator principal, Wagner Moura, é um veterano que vem do interior da Bahia, mas a história se passa em Recife, quebrando o estereótipo de que o Nordeste se resume apenas à Bahia. A personagem Tania Maria, uma artesã de 78 anos, representa o etarismo de forma notável, e ela não está sozinha. O sogro do protagonista é um homem negro e idoso que aparece mancando de forma marcante em uma cena, sendo seguido por um matador de aluguel, que também é negro. Além disso, a esposa de Wagner no filme, a nordestina Alice Carvalho, traz mais diversidade ao elenco.

Preconceitos e Realidade

A diversidade do filme não se limita apenas ao elenco ou à ambientação do Recife dos anos 70. Em um determinado momento, o filme ilustra a visão preconceituosa dos sulistas em relação ao Nordeste. Um personagem, que é um gângster representante da estatal Eletrobrás, exibe uma série de preconceitos contra a região e seus habitantes. Essa representação é crucial, pois nos lembra que o preconceito ainda é uma realidade que muitos enfrentam diariamente.

Um Caminho a Ser Trilhado

Embora ‘O Agente Secreto’ não seja perfeito em termos de diversidade e inclusão, assim como o Brasil também não é, é um filme que demonstra que já estamos trilhando um caminho. É um reflexo de um Brasil que, embora crue e violento, está começando a se mostrar mais fiel à sua realidade. Agora, resta a esperança de que no próximo ano possamos novamente ver um filme que siga essa linha, como Carolina de Jesus. Este filme está sendo produzido com a atuação da atriz negra Maria Gal e a direção do cineasta negro Jeferson D. A história de Carolina, uma ícone da literatura brasileira, com seu famoso “Quarto de Despejos”, promete ser um sucesso, especialmente porque será traduzida em várias línguas.

Expectativas para o Futuro

Esperamos que esse projeto tenha o financiamento necessário para resistir à maratona até o Oscar, algo que muitas vezes falta a produções lideradas por negros no Brasil. O cinema tem o poder de contar histórias que refletem quem somos, e é essencial que continuemos a apoiar essas narrativas. Se você ainda não assistiu a ‘O Agente Secreto’, vale a pena conferir. É um convite à reflexão sobre a nossa sociedade e um passo em direção a uma representação mais justa e inclusiva.

Deixe sua opinião nos comentários! O que você achou do filme? Você acredita que ele representa a diversidade brasileira?



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